segunda-feira, 26 de julho de 2010

Fantasmas do passado assombram o futuro



26/07/2010 - Transporte Idéias
Enquanto o governo discute a necessidade de aumento na taxa básica de juros para garantir a sustentabilidade da economia, no setor produtivo o desafio é descobrir uma forma de suprir a superdemanda em meio à falta generalizada de infraestrutura. Os aeroportos e portos operam no limiar da capacidade, as estradas e ferrovias são insuficientes para o volume de produtos a serem transportados e as empresas sofrem com a falta de profissionais qualificados em diversos setores, desde padeiros a engenheiros. De acordo com o “Correio Braziliense”, é estimado que o volume de investimentos alcançará ao menos R$ 5,5 trilhões até 2016, considerando um incremento médio de 10% ao ano. O montante é praticamente a metade do que seria necessário.
O tempo hábil para desatar os gargalos é apertadíssimo. Restam apenas quatro anos para a Copa do Mundo e seis para as Olimpíadas. Se os investimentos não começarem desde já, a imagem do país será arranhada em diversos cantos do planeta. O problema vai muito além da falta de aeroportos e passa por escassez de leitos em hotéis, atendimento desqualificado e deslocamento urbano ineficiente. O Brasil terá de fazer, em curto prazo, o dever de casa acumulado ao longo dos últimos 20 anos, período em que a proporção do investimento em infraestrutura em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) ficou, em média, na casa dos 2%. O percentual equivale a menos de um terço em comparação a nações como Chile ou China e metade do dinheiro aplicado pela Índia.
De acordo com o estudo A Indústria e o Brasil, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), nos últimos três anos, houve constante aumento da disponibilidade de dinheiro para investimentos públicos, mas a execução das obras não alcançou a velocidade e o volume esperados. Persistem sérios problemas na oferta dos serviços de áreas estratégicas, como saneamento básico, gás natural, energia elétrica, navegação de cabotagem, hidrovias, ferrovias, rodovias, portos e aeroportos. As exceções são os setores de telecomunicações e petróleo.
A estimativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é de que, no quadriênio 2010-2013, serão aplicados R$ 274 bilhões na área de infraestrutura, 38% a mais que nos quatro anos anteriores. Cálculos da Confederação Nacional de Transporte (CNT), contudo, apontam que, só no setor de transportes, são necessários investimentos da ordem de R$ 280 bilhões. Apesar do avanço nos últimos anos, o país ainda precisa pelo menos duplicar 13 mil quilômetros de estradas, além de ampliar a participação das ferrovias na malha viária, dos atuais 20% para 40%.
“O problema mais urgente no setor de transportes é a melhoria das condições de circulação urbana, em virtude da proximidade da Copa do Mundo. Se não houver investimento maciço no transporte de massa, o país corre o risco de parar durante o mundial”, alerta o presidente da CNT, Clésio Andrade. A precariedade das estradas afeta diretamente o custo das empresas e, em efeito dominó, a competitividade, as exportações, o investimento em mão de obra e a produção como um todo. “Se o Brasil reduzisse em 10% o custo das empresas com logística investindo em infraestrutura de transportes, as exportações para os Estados Unidos cresceriam 30%”, afirma o vice-presidente da CNI, José Mascarenhas.
A pressão sobre a infraestrutura nacional é sentida também no setor de caminhões. De acordo com o diretor de Vendas da Iveco, Alcides Cavalcanti, a empresa registrou aumento de 50% no número de unidades vendidas durante o primeiro semestre. Apesar de a base de comparação estar deprimida devido aos efeitos da crise mundial, Cavalcanti projeta fechar 2010 com recorde no volume de vendas, resultado que deve ser superado sucessivamente até 2016.
O diretor da Iveco ressalta que a expansão nas vendas foi puxada principalmente pelo segmento de caminhões pesados, exatamente aqueles que transportam materiais para a construção civil, insumos para a indústria e escoam produtos para a exportação. “O prazo para a entrega dessas unidades normalmente é de 60 dias, porque são caminhões moldados especificamente para cada cliente. Com a forte demanda, contudo, o período de entrega pode chegar a 120 dias”, afirma.
Um dos principais problemas da economia nacional é o da escassez de mão de obra qualificada. Espalhada em diversos setores, a dificuldade é pior nos segmentos mais aquecidos, como construção civil, indústria da transformação, serviços e comércio. Um levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) mostra que a demanda por engenheiros no país é tão grande que, se não houver uma formação maciça dessa categoria de profissionais em curto prazo, o crescimento sustentável se tornará inviável.
De acordo com o estudo, enquanto a proporção de graduados em engenharia no Brasil para cada 10 mil habitantes é de 1,95%, em países como a Coreia do Sul e a Finlândia esse número passa dos 16%. O engenheiro da Paulo Octávio Leandro Borges, responsável pela construção de um prédio comercial no Setor de Indústrias Gráficas, explica que o recurso encontrado para suprir a demanda foi o de qualificar os trabalhadores dentro da própria obra. Além disso, a construtora passou a recorrer a empresas terceirizadas para encontrar trabalhadores, porém o tempo para o preenchimento de uma vaga para eletricista, por exemplo, pode levar mais de um mês.
Uma das consequências da falta de mão de obra é o aumento de salários e benefícios trabalhistas com objetivo de reter os talentos nas empresas. Algumas construtoras chegam a “leiloar” funcionários e até trazem pessoas de outros estados. Um dos funcionários mais cobiçados pela concorrência dentro da Paulo Octávio é o mestre de obras Luiz Farias Neto, 60 anos de idade e quase 30 de profissão. “A economia cresceu mais rápido do que a mão de obra e do que a própria capacidade dos nossos fornecedores nos atenderem. Hoje, temos que treinar os operários aqui dentro, mas o período de aprendizagem leva, no mínimo, um ano”, pondera.
Segundo o engenheiro Leandro Borges, o ganho médio dos ajudantes e profissionais de obra em, Brasília, hoje, é de R$ 550 e R$ 1 mil, respectivamente. “Pode-se somar a isso mais 20% em virtude de horas extras”, acrescenta. A quantia é quase o dobro do que era oferecido há três ou quatro anos. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), os salários médios de admissão, nos empregos com carteira assinada, subiram de R$ 783,08 para R$ 821,13 na comparação entre os seis primeiros meses deste ano com igual período de 2009, o que representa um aumento real de 4,86%.
A escassez de trabalhadores não é exclusividade da construção. De acordo com o vice-presidente da Brasal, Osório Neto, a empresa conta, atualmente, com 250 vagas abertas que só não foram preenchidas por falta de mão de obra qualificada. “Isso é mais um motivo para investirmos em programas para retenção de talentos e valorização dos funcionários. Além disso, estamos com projeto para ampliar o programa de estágio. O aproveitamento dos aprendizes chega a 80%”, relata. Só na Brasal Refrigerantes, fabricante da Coca Cola na região, são 100 postos de trabalho em aberto.

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