domingo, 15 de agosto de 2010

Crescimento tropeça na falta de mão de obra

Há no DF pelo menos 7 mil vagas não preenchidas devido à falta de qualificação dos trabalhadores, o que leva as empresas a perderem negócios. Problema tende a se agravar devido à Copa do Mundo, que exigirá obras de infraestrutura

Diego Amorim - Correio Braziliense
Publicação: 15/08/2010 08:52 Atualização: 15/08/2010 09:31

 - (Rafael Ohana/CB/D.A Press )
Máquinas paradas, galpões e escritórios ociosos, projetos engavetados e empresários desesperados. A falta de mão de obra qualificada empaca a economia do Distrito Federal. Em todos os setores, a reclamação é recorrente e cada vez mais preocupante: sobram vagas, mas não há gente preparada para trabalhar. Mesmo com a Copa do Mundo de 2014 a caminho e Brasília confirmada como cidade-sede, o setor produtivo se vê obrigado a colocar o pé no freio. Como o quadro de funcionários não consegue acompanhar o avanço da demanda, o desenvolvimento econômico fica seriamente afetado.

Quase 7 mil postos de trabalho podem não ser ocupados no DF este ano por ausência de trabalhadores qualificados, segundo projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O problema tornou-se crônico em todo o Brasil. Para especialistas, o fenômeno é resultado, em grande parte, do crescimento econômico acelerado que o país atravessa. Na capital federal, porém, há um agravante. Com muita facilidade, a iniciativa privada perde bons profissionais para a administração pública, o que torna ainda mais complicado preencher as vagas abertas.

Para concorrer com os concursos públicos e enfrentar a barreira da falta de mão de obra, empresas locais têm se desdobrado. Aumentam salários, oferecem mais benefícios e, principalmente, tomam para si a função de formadores dessas profissionais. Locais de trabalho viraram escolas, literalmente. Trazer gente de outros estados ainda é uma alternativa, apesar de ser cara e desafiadora, uma vez que o problema não se restringe ao DF. A Secretaria de Trabalho tenta fazer sua parte. Em 2009, qualificou cerca de 25 mil pessoas, a maioria para atuar na construção civil, setor cuja defasagem chega a 5 mil trabalhadores.

O deficit nos canteiros de obra envolve todas as funções. Faltam de ajudantes de pedreiro a engenheiros, passando por carpinteiros, armadores e eletricistas. Sem gente para trabalhar, prazos deixam de ser cumpridos à risca. “Não tem jeito. Além dos quadros de pessoal defasados, o material demora a chegar, porque também falta mão de obra na indústria. É um efeito dominó terrível”, diz o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF (Sinduscon-DF), Elson Ribeiro e Póvoa, preocupado com o andamento das obras de infraestrutura para a Copa do Mundo.

Indústria
A indústria brasiliense sofre com a falta de mão de obra qualificada. Além da construção civil, o setor de tecnologia da informação é um dos mais afetados. As empresas investiram em máquinas de última geração, mas não há quem as opere. “Isso afeta a qualidade dos produtos e causa uma insegurança tremenda nos empresários”, diz o presidente da Federação das Indústrias do DF (Fibra), Antônio Rocha. No último ano, conta ele, a entidade formou 12 mil pessoas, com o apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Mas o número não foi suficiente para suprir a demanda do mercado de trabalho.

No mês passado, a Empremon Equipamentos, empresa de engenharia instalada em Taguatinga, deixou de fechar um negócio de R$ 200 mil em Pernambuco porque faltou mão de obra. “Está impossível achar gente boa no mercado”, afirma o diretor Manoel Adorno. Ele anuncia que há pelo menos 30 vagas abertas atualmente, inclusive para engenheiros, cujo salário pode ultrapassar R$ 5 mil, além de benefícios como plano de saúde e hora extra. “Simplesmente não conseguimos ocupar as vagas. Para contratar uma estagiária de arquitetura, levamos três meses”, conta.

Por mês, a empresa de Adorno desembolsa R$ 10 mil para pagar cursos feitos por 15 funcionários. Jeosadaque Araújo, 34 anos, começou a se especializar na área de refrigeração e ar-condicionado. Em duas semanas, quando concluir o concurso, verá o contracheque engordar em cerca de 25%. “Se não fosse a empresa, não teria condições de pagar”, diz Araújo. O patrão sustenta que a falta de mão de obra qualificada é um problema político transferido para as empresas. “O governo tem ganância para arrecadar com impostos, mas não sabe aplicar esse dinheiro em capacitação”, critica.

O galpão da Movelaria Vila Rica, em Ceilândia, tem capacidade para 35 pessoas trabalharem ao mesmo tempo. No entanto, o número de funcionários subordinados a Paulo Carlos Filho, proprietário da empresa, não passa de oito. Há 14 máquinas paradas. E quase 30 projetos aguardam mão de obra para saírem do papel. “Preciso de trabalhadores na área de pintura, usinagem, montagem, marcenaria. Interessados há, mas quando botam a mão na massa, não dão conta do recado”, conta ele, que precisa recusar projetos por falta de gente. “Se não fosse isso, meu faturamento seria 10 vezes maior”, calcula.

Empresas gastam em treinamentos

 - (Rafael Ohana/CB/D.A Press)
O problema da falta de mão de obra qualificada é generalizado no Distrito Federal. No comércio, quem se apresenta com o mínimo de conhecimento nas áreas de vendas e informática consegue ser contratado com facilidade, diz o presidente do Sindicato do Comércio Varejista do DF (Sindivarejista-DF), Antônio Augusto de Morais. “É tão séria a situação que não precisa nem ser experiente. Basta fazer o básico benfeito que a pessoa já sai na frente”, acrescenta. No caso do cargo de gerente, a dificuldade de encontrar gente é ainda maior. Tanto é que a maioria deles são ex-vendedores da própria loja. Por mês, diz Morais, o sindicato treina cerca de 500 pessoas para atuarem no comércio.

Depois de se unir no mês passado à Brazil Pharma, holding de farmácias do Banco BTG Pactual, a rede brasiliense Rosário Distrital prevê a abertura de 30 lojas e a criação de pelo menos mil empregos até 2012. Por ano, a empresa tem gasto, em média, R$ 1,2 milhão com treinamento — estrutura, professores, alimentação e transporte. “Percebemos que é mais vantajoso investir na capacitação interna do que depender de novos funcionários”, comenta o diretor de operações, Rodrigo Silveira. O último investimento foi na contratação de um professor de matemática. “Nos processos seletivos, aparecem pessoas com ensino médio completo, mas que não sabem fazer conta”, exemplifica.

Basta um anúncio no jornal que, em uma semana, chegam cerca de 600 currículos para serem analisados na academia VIP Training, no Lago Sul. “O problema é encontrar pessoal qualificado”, conta o sócio Daniel Campos. Há mais de um mês, ele procura um professor de spinning. A dificuldade vale também para recepcionistas e auxiliares de serviços gerais. Quando encontra alguém bom, Daniel costuma segurar o profissional oferecendo um salário maior. “Porém, de modo geral, existe um descompasso entre o que os candidatos querem, o que eles têm para oferecer e o que o mercado tem para oferecer”, comenta Campos.

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