segunda-feira, 4 de junho de 2012

Infraestrutura anda na contramão

03/06/2012 - O Globo

Os movimentos que o governo federal tem feito para modernizar o gerenciamento dos aeroportos, transferindo essa competência à iniciativa privada, visam a desobstruir gargalos do setor. Essas ações, se bem encaminhadas (e bem- sucedidas), aliadas a uma política de captação de novos passageiros posta em prática pelas empresas aéreas via barateamento de tarifas, são fundamentais para consolidar uma nova realidade no transporte aéreo, não só com vistas às demandas da Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, mas como ponte para o futuro de um serviço essencial ao crescimento do país. Portanto, no ar são otimistas as perspectivas . Mas, na terra e no mar, o Brasil anda a passos tímidos para superar contenciosos, investindo pouco, e mal, em infraestrutura.

Uma série de reportagens publicadas pelo Globo ajuda a compor o perfil de um país cuja infraestrutura viária parece andar na contramão. O poder público prioriza o transporte rodoviário, mas não cuida de estradas e da qualidade dos serviços prestados por concessionárias de ônibus; trabalhou, no passado, pelo definhamento da malha ferroviária; e subaproveita o potencial hidroviário e marítimo de um território banhado a leste por um oceano e alimentado por imensas bacias fluviais.

Os números do que se aplica no setor dão a dimensão do problema. Segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil investe em infraestrutura apenas 0,4% do seu PIB, menos da metade da média mundial (a comparação com a China, outro país de dimensões continentais e também emergente, é mais desfavorável: os investimentos brasileiros em transporte correspondem a 10% do volume chinês de inversões, ou 4% do PIB).

O Brasil que não voa é demograficamente maior (150 milhões de passageiros de longa distância em 2011) do que aquele que viaja de avião (89,9 milhões de bilhetes no ano passado), mas tem merecido bem menos atenção do poder público. Investe-se, hoje, no Brasil, em infraestrutura menos do que na década de 80 do século passado — quando a realidade de estradas, ferrovias e transporte hidroviário já não permitia manifestações de otimismo. Desta opção pelo descuido com a infraestrutura resulta um quadro desalentador, principalmente pelo interior do país. Estradas mal conservadas e vista grossa com empresas de serviços de transporte de passageiros são a fórmula de um desastre que se mede por índices deploráveis de acidentes e mortes. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em 2011 houve 197 óbitos em viagens de longa distância. Junte-se a estes números 25 mortes em transporte fluvial, e chega-se à assustadora estatística de um morto a cada 40 horas. Há casos de concessionárias de transporte rodoviário que, permissionárias das linhas mas sem ônibus em quantidade suficiente, recorrem aos serviços de donos de veículos autônomos. E vai por aí.

A série do Globo relata o drama de personagens de um mundo que passa ao largo de aeroportos. Pessoas que medem suas viagens em dias, não em horas; que trocam o conforto e a pressa pela necessidade de gastar menos para viajar. Uma realidade — dura para a maioria absoluta dos usuários de transportes — que reclama ações mais efetivas do poder público.

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