quarta-feira, 10 de abril de 2013

Editorial: O país das obras atrasadas

09/04/2013 - O Estado de S.Paulo

O Brasil vai continuar emperrado por muito tempo, se a aceleração do crescimento econômico depender das obras de infraestrutura tocadas pelo setor público ou entregues ao setor privado em regime de concessão ou de parceria. Atrasos nas obras de geração e de transmissão elevam o risco de apagões e de racionamento de energia elétrica nos próximos anos. Construções de aeroportos estão paradas, investimentos em mobilidade urbana vão mal e quem quiser viajar pelo Brasil para acompanhar a Copa do Mundo, no próximo ano, terá de enfrentar condições precárias em todos os tipos de transporte. O País, segundo prometem a presidente Dilma Rousseff e seus auxiliares, vai fazer bonito em 2014. É muito tarde para prometer algo semelhante para a Copa das Confederações, neste ano, mas nenhuma autoridade federal parece ansiosa para discutir detalhes desse tipo. É muito mais confortável discursar como se as obrigações assumidas pelo presidente Luiz Inácio da Silva em 2007 só valessem para o próximo ano e para a próxima Olimpíada, em 2016. Será quase impossível evitar o vexame internacional na Copa do Mundo, mas as piores consequências serão de outra ordem.


Por desleixo e inépcia do governo, os projetos concebidos para os grandes eventos esportivos serão concluídos com grande atraso - se forem - e qualquer esforço para apressar sua conclusão implicará enormes custos adicionais. Além disso, o Brasil terá desperdiçado um monte de dinheiro e continuará com uma infraestrutura muito pobre e com padrão muito inferior ao mínimo necessário a um país extenso e com economia diversificada e exposta a uma concorrência internacional cada vez mais dura.

Até o próximo ano os projetos do setor de energia deveriam acrescentar 6.149 megawatts (MW) à capacidade nacional de geração. Se os atrasos persistirem, ficará faltando quase metade (48%) desse total. Também estão fora do cronograma dois terços dos 80 projetos de transmissão previstos para ser concluídos até 2015. Os dados são da Aneel. As falhas de planejamento são evidentes. As autoridades do setor esqueceram-se, por exemplo, de compatibilizar os planos de geração e os de transmissão. Algumas consequências chegam a ser cômicas. Foi muito difundido o caso do parque eólico da Bahia, pronto para produzir eletricidade, mas impedido de funcionar por falta de linhas de transmissão.

No setor do transporte aéreo o quadro é igualmente desastroso. As obras do novo aeroporto de Goiânia, paralisadas há quase seis anos, são hoje apenas uma modesta estrutura de concreto no meio de muito mato. O tempo de paralisação das obras de Vitória, no Espírito Santo, é um pouco menor: o quinto aniversário será em julho, mas sem festa e sem bolo com velinhas. As empreiteiras alegaram rompimento do equilíbrio econômico-financeiro do projeto, abandonaram as obras e recorreram à Justiça. Em Goiânia, o velho aeroporto foi adaptado à maior demanda com um puxadinho. Pelo contrato original, a construção custaria R$ 257,7 milhões e seria concluída em três anos. Um aditivo elevou o preço para R$ 287,6 milhões, mas o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou irregularidades graves e os trabalhos foram interrompidos.

Em todas as modalidades vai muito mal a execução de projetos. No ano passado, o Ministério dos Transportes desembolsou R$ 10,5 bilhões para obras e compras de equipamentos, embora estivessem previstos R$ 23,2 bilhões no orçamento. Submetido a uma faxina moral e administrativa em 2011, o Ministério operou com muita dificuldade no ano passado.

Para 2013 o novo ministro, César Borges, dispõe de R$ 16 bilhões para investir, mas será uma surpresa se o Ministério apresentar, até dezembro, resultados muito melhores que os do último biênio. De modo geral, o setor de transportes, apesar de bem aquinhoado no Orçamento, tem desempenho limitado por problemas comuns à maior parte do governo. A ineficiência gerencial reflete a baixa capacidade de elaboração e de execução de projetos. Problemas com o TCU são uma das consequências mais notórias dessa incapacidade.



Fonte: O Estado de S. Paulo
Publicada em:: 09/04/2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Fila nos portos barateia mercadorias e encarece frete em 30%

01/04/2013 - Ig

Custo da espera dos navios chega a US$ 600 mil, levando a perdas de US$ 10 por tonelada ao exportador. Câmbio favorável ajuda produtor a cobrir custo do transporte.

Fila nos portos ajudou a reduzir cotação da soja brasileira no mercado internacional em US$ 18 dólares por tonelada. Foto: AE
O gargalo para embarcar mercadorias nos portos em 2013 não só aumentou os custos do transporte, como também reduziu em US$ 18 por tonelada os preços internacionais da soja brasileira, segundo levantamento da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais).

Na Bolsa de Chicago, para compensar a demora na entrega, a tonelada da soja nacional sofreu um desconto de 3,6% (de US$ 500 para US$ 482) na semana passada.

Enquanto isso, o custo do transporte de grãos só aumenta: passou de US$ 80 por tonelada, em 2011, para US$ 98 no ano passado, e deve ficar mais caro em 2013, segundo o presidente da Anec, Sérgio Mendes.

Nos Estados Unidos e na vizinha Argentina, por exemplo, o valor médio ponderado da tonelada para transportar a mercadoria é de US$ 20, um custo menor superior a US$ 70 por tonelada em relação ao Brasil.

O presidente da Aprosoja (Associação de Produtores de Soja de Mato Grosso), Carlos Fávaro, estima que a demora para escoar os grãos nos portos em 2013 engordou o custo do frete em torno de 30%.

Para Mendes, da Anec, a maior demanda por caminhões, incentivada pela super safra de grãos, e a Lei dos Caminhoneiros (nº 12.619) – que obriga um descanso de meia hora a cada quatro trabalhadas, além de 11 horas de folga a cada dois dias ao volante – também ajudaram a encarecer o transporte.


Fila quilométrica de caminhões à espera para descarregar mercadorias no porto de Santos, na rodovia Cônego Domênico Rangoni. Foto: Futura Press/Roberto Vazquez
Fávaro estima que o prejuízo financeiro dos exportadores de soja e milho, este ano, será contabilizado em bilhões de reais. "Passou do stress. Agora é colapso", diz. O problema pode ser agravado, ainda, pela possível boa safra norte-americana, segundo ele. "Se isso se confirmar, o preço internacional dos grãos tende a ceder. Perderemos competitividade por não conseguir pagar os custos do frete".

No porto de Santos, o custo diário por cada navio parado é de US$ 20 mil, segundo a Anec. "Com tempo médio de espera por navio de 30 dias, o custo total é de US$ 600 mil. Como cada navio tem capacidade de 60 mil toneladas, a perda média do exportador é de US$ 10 por tonelada", calcula Mendes.

Outra preocupação dos produtores nacionais, além das perdas, é o cancelamento de contratos com importadores, em razão da demora. A chinesa Sunrise cancelou, na semana retrasada, a carga de dez navios que não chegaram à China e outros 23 que atracariam no continente asiático nos próximos meses. A decisão encalhou ao menos dois milhões de toneladas de soja brasileira.

Alívio no câmbio

As perdas do produtor brasileiro só são compensadas pela recente recuperação do dólar frente ao real, cotado na última quinta-feira (28) a R$ 2,02. "O exportador paga o frete em reais, mas sua mercadoria é comprada em dólares. Quando o câmbio está favorável, acima de R$ 2, ele ajuda a compensar estas perdas", aponta o presidente da Anec.

"Safrona"

O presidente-executivo da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho) e ex-ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, afirma que para driblar os entraves no transporte da super safra do período – a safrinha do milho passou a ser chamada de "safrona" –, a iniciativa privada tem ajudado a redirecionar o frete para áreas menos congestionadas do país.

Mas o esforço é insuficiente, segundo ele, para evitar as perdas possivelmente repassadas aos preços no mercado interno. "O consumidor também paga a conta, porque quando o produtor recebe menos, é obrigado a elevar o preço do produto", diz Paolinelli.

Fonte: IG, Por Taís Laporta