quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os mistérios e as denúncias nas obras de metrôs pelo Brasil

27/08/2013 - Revista Época

Maiores alvos dos protestos por melhor transporte público, os governos de São Paulo e Rio de Janeiro negam informações triviais sobre as obras do metrô, marcadas por atrasos e denúncias

Por Leopoldo Mateus e Vinícius Gorczeki

A Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro, que ligará a Zona Sul à Barra da Tijuca, já era uma obra cara. Em dezembro de 2012, o governo fluminense anunciou que a linha custará 70% mais que o estimado inicialmente. A previsão de R$ 5 bilhões para ligar Ipanema ao Jardim Oceânico saltou, de acordo com estimativas anunciadas pelo governo, para R$ 8,5 bilhões, com conclusão em 2015. A linha homônima paulista, também conhecida como Linha Amarela, foi prometida para 2007. Após um grave acidente nas obras, o prazo passou para 2008, 2009, até que as duas primeiras estações foram abertas em 2010. Outras vieram em 2011. A conclusão da linha foi prometida para 2012. Depois 2013. Agora 2014. As obras de transporte metroviário no Brasil são marcadas por custos crescentes, adiamentos, promessas não cumpridas – e, segundo o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e o Ministério Público, contratos sob suspeita de favorecimentos e desvios de dinheiro. Os alvos mais recentes são as linhas 2 e 5, de São Paulo.

Na quarta-feira, dia 14, ÉPOCA pediu acesso a números relativos à construção de metrôs em seis capitais do país: Porto Alegre, Brasília, Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Os quatro primeiros governos estaduais ou companhias de metrôs desses Estados enviaram de pronto suas respostas, com dados sobre compras de trens, valores gastos na construção das linhas e os nomes das empresas envolvidas. Os governos de São Paulo e Rio de Janeiro não forneceram as informações – que são públicas e constam dos arquivos de Estado. As dificuldades das gestões Geraldo Alckmin (PSDB) e Sérgio Cabral (PMDB) em oferecer esclarecimentos triviais à imprensa parecem iguais às que ambos têm para acelerar a oferta de transporte público de qualidade. Trata-se, por sinal, da principal reivindicação dos protestos que tomaram o país desde junho. Nos mais recentes, manifestantes pediram, nas ruas das capitais de seus Estados, a saída de ambos do governo.

O governo paulista está sob pressão devido às suspeitas de irregularidades e formação de cartel em contratos para obras do Metrô e da CPTM – companhia que administra os trens urbanos. ÉPOCA teve acesso às mais de 1.200 páginas do inquérito aberto pelo Cade para investigar denúncias de cartel feitas pela companhia alemã Siemens. Das seis licitações colocadas em xeque na confissão, cinco recaem sobre projetos nos trens da CPTM e do Metrô, entre 1999 e 2007. O período inclui três administrações tucanas: Mário Covas (1995-2001), Geraldo Alckmin (2001-2006) e José Serra (2007-2010). Estão sob suspeita a Linha 5 do Metrô, a manutenção dos trens das séries 2000, 3000 e 2100, a extensão da Linha 2 do Metrô, os quatro processos que envolvem o projeto Boa Viagem dos trens da CPTM e duas compras da CPTM – uma de 320 carros e outra de 64. Somados, os valores dos contratos investigados sob suspeita de cartel superam R$ 1,1 bilhão, e o superfaturamento foi estimado em até 30%. O governador Alckmin prometeu processar a Siem

São Paulo e Rio de Janeiro têm os metrôs mais caros do país por vários motivos. São as únicas cidades em que os trens passam, na maioria do trajeto, por baixo da terra. Isso leva o custo de cada quilômetro, em média, para entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões. Nas outras capitais do país com metrô, geralmente com trilhos por cima da terra, os números são mais modestos. O quilômetro de linha não costuma superar R$ 100 milhões (confira os dados no quadro abaixo). Por isso, ÉPOCA fez uma solicitação específica a todos os governos: o pedido incluiu dados de metrô subterrâneo e de superfície.

Em nota, o governo de São Paulo disse que os gastos do Metrô são públicos, mas não da forma como foram solicitados por ÉPOCA. O governo confirmou que o preço médio do quilômetro é de R$ 500 milhões. O governo do Rio disse que, "além de implementar o que foi planejado por governos anteriores, realizou outras iniciativas importantes para a mobilidade da população por meio do Metrô".

Nota enviada pelo Governo do Rio de Janeiro:

"Nos últimos dez anos, o Estado do Rio de Janeiro realizou apenas uma licitação envolvendo o metrô, referente ao gerenciamento de obras da Linha 4.

Projetos importantes como o início da construção da Linha 4 e a expansão da Linha 1 até Ipanema, com a inauguração da estação General Osório, embora tenham sido e estejam sendo executados por este Governo, tiveram licitações realizadas em 1998 e 1987, respectivamente.

O atual Governo do Estado do Rio de Janeiro, além de implementar o que foi planejado por Governos anteriores, mas nao tinha sido executado, realizou outras iniciativas importantes para a mobilidade da população por meio do metrô.

Neste período houve a compra de 19 novos trens chineses, a construção da Linha 1A (integração entre as duas linhas, que garante conforto e economia de tempo às viagens dos passageiros que vêm da Linha 2 para estacoes da Linha 1), a construção da estação Cidade Nova, a extensao da Linha 1 até a Estacao Uruguai, que será entregue à populacao em marco de 2014, bem como investimentos em sistemas para aumento da seguranca dos passageiros.

Estes projetos foram desenvolvidos pelo Governo e executados por parte da concessionária, por determinação contratual."

Fonte: Revista Época

Nenhum comentário:

Postar um comentário