quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Incertezas marcam volta da Marcopolo

25/02/2015 - Valor Econômico

A Marcopolo reinicia as operações das suas duas principais fábricas no país, em Caxias do Sul (RS), após dez dias de férias coletivas fora de época, ainda sem cenário claro para 2015. Esperadas desde dezembro, quando haviam sido adiadas devido às incertezas que pairavam sobre o setor, as projeções de desempenho da fabricante de carrocerias de ônibus para este ano foram novamente postergadas para data ainda não definida.

"Não estamos confortáveis em passar um panorama", disse ontem o diretor de relações com investidores da companhia, José Antônio Valiati, depois da apresentação dos resultados do ano passado. "Nosso segmento muda muito rápido e estamos administrando no curto prazo", afirmou o executivo. Sem detalhar percentuais, ele disse que o nível atual de encomendas está "mais fraco" do que no mesmo período de 2014.

No ano passado, em linha com a produção brasileira do setor, que caiu 14,1%, para 28,4 mil unidades, a Marcopolo teve queda de 14,2% no volume consolidado produzido no Brasil e no exterior (excluindo as participações e as empresas com controle compartilhado, contabilizadas via equivalência patrimonial), para 17,7 mil ônibus. O lucro líquido consolidado caiu 23,3%, para R$ 224,1 milhões, o Ebitda recuou 29,6%, para R$ 306,4 milhões, e a receita líquida diminuiu 7,1%, para R$ 3,4 bilhões.

Segundo Valiati, a empresa ainda não consegue "medir" o efeito, em 2015, da mudança na linha de financiamento do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), do BNDES, nem das medidas de ajuste fiscal do governo federal. A taxa do PSI, que era de 6% ao ano, passou para 9,5% a 17,24%, conforme o percentual financiado do veículo e o porte da empresa compradora, e o prazo de pagamento baixou de dez para seis anos.

Também não há ainda perspectiva sobre a regulamentação, pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), do regime de autorização das linhas de ônibus interestaduais para que as empresas reforcem a renovação das frotas, disse o diretor. A estimativa é que as novas regras gerem uma demanda anual de 2 mil a 2,5 mil ônibus durante quatro a cinco anos, mil unidades a mais por ano do que na situação atual.

Outra dificuldade é a falta de clareza sobre o rumo do programa Caminhos da Escola, que repassa aos municípios veículos escolares adquiridos com recursos da União. A Marcopolo vendeu 4,1 mil unidades no leilão de janeiro de 2014, mas faturou só 40% do lote e não há definição da entrega das demais. Conforme o diretor, a empresa tem R$ 210,9 milhões a receber do programa, dos quais R$ 100 milhões em atraso. "Espero que [o pagamento dos atrasados] ocorra no primeiro trimestre", comentou.

O cenário é mais favorável no segmento de urbanos e das exportações. Segundo Valiati, já há "algum movimento" de renovação das frotas de ônibus urbanos, pois mais de 80 cidades reajustaram as tarifas cobradas pelas empresas de transporte depois do represamento provocado pelos protestos de junho de 2013 pelo país.

No caso das vendas a partir do Brasil para o mercado externo, a ajuda vem da desvalorização do real, que cria uma perspectiva positiva por conta do aumento da competitividade dos produtos brasileiros, disse o executivo. A variação cambial já foi a principal responsável pelo cumprimento da projeção de receita líquida consolidada de R$ 3,4 bilhões em 2014, graças à conversão para reais dos dólares obtidos nas operações.

A projeção original para 2014 era de receita líquida de R$ 3,8 bilhões, mas foi revisada para baixo em agosto. A previsão de produção baixou de 20,85 mil para 19 mil ônibus, e acabou 6,8% menor. A meta de investimento recuou de R$ 160 milhões para R$ 130 milhões e a cifra fechou em R$ 136,3 milhões, a maior parte direcionada à nova fábrica de miniônibus Volare no Espírito Santo, que começou a operar no mês passado.

Com o setor desaquecido, a Marcopolo reduziu em 9,2% o número de funcionários em 2014, para 16,8 mil, incluindo as controladas e coligadas na proporção da participação acionária. Na virada para 2015, a empresa também aumentou de duas para três semanas o período de férias coletivas e agora fez nova parada de dez dias em Caxias do Sul e de uma semana na fábrica do Rio de Janeiro.

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