terça-feira, 19 de maio de 2015

Cinco fatos que indicam ligação entre o setor de transportes e o PCC

19/05/2015 - O Estado de SP

Leia: Perueiro foi morto após questionar novo contrato de transporte - O Estado de SP

Morte e agressão paralisam apuração sobre lotações; PCC estaria envolvido - O Estado de SP

Desde 2003, quando o sistema de transporte público de São Paulo foi reestruturado, os antigos perueiros se transformaram em membros de cooperativas de ônibus e, já no mesmo ano, surgiram os primeiros indícios de ligação entre as cooperativas e a organização Primeiro Comando da Capital (PCC). Naquele ano, um coordenador de cooperativa foi preso, depois de grampos telefônicos apontarem sua ligação com o tráfico de drogas. Mas a mistura entre crime organizado e transporte público estava longe do fim.

MORTE DE DONOS DE LINHAS

Três pessoas foram mortas em junho de 2005 durante o que foi, para a polícia, uma disputa pelo controle da linha Santo Amaro/Jardim Luso. As vítimas foram os coordenadores da linha, Roberto Carlos Santos Campos, de 38 anos, e André Jacinto dos Santos, de 26, além do perueiro Marcos Rodrigues de Oliveira, de 27. Foi um crime premeditado. Eles foram sequestrados em pontos diferentes da cidade e levados para uma casa na Favela Ingaí, região do Jardim Miriam, zona sul.

FRAUDE NO BILHETE ÚNICO

Uma ação do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e da São Paulo Transporte (SPTrans) descobriu, em março de 2006, um golpe para fraudar o bilhete único, o chamado "golpe da coruja". Bilhetes únicos eram validados em ônibus parados, criando um faturamento indevido a veículos da extinta Cooperativa Aliança Paulista. O esquema servia para lavar dinheiro para a facção, segundo a polícia.

REUNIÃO COM POLÍTICO

Durante uma investigação da Polícia Civil, em março de 2014, grampos indicaram que integrantes do PCC se reuniriam com líderes perueiros. A investigação apurava ataques contra ônibus da cidade - as lotações eram sempre poupadas. Quarenta e duas pessoas foram averiguadas. Entre os flagrados no encontro, estava o então deputado estadual Luiz Moura, na época do PT. Da corrente PTLM (PT de Luta de Massas), a mesma do secretário de Transportes Jilmar Tatto, Moura terminou expulso do partido. Ele e seu irmão, o vereador Senival Moura, tinham nos perueiros sua principal base política.

LAVAGEM DE DINHEIRO

Em outubro de 2014, 11 anos depois do surgimento dos primeiros indícios de que o PCC usa as lotações para lavar dinheiro, as primeiras duas pessoas suspeitas de operar esse crime foram denunciadas pelo MP. Eram Geralda Jorge da Silva e Marcos Paulo Vidal de Castro. "Os valores originários do tráfico foram dissimulados por meio de INVESTIMENTOS feitos em vans, que circulavam em linhas da Coopertranse no transporte coletivo alternativo, especificamente na linha da Vila Ema (zona leste de São Paulo)", diz a denúncia. A Coopertranse não opera mais

CARTA DOS LÍDERES

No mesmo ano de 2014, foi divulgada uma carta entre dois dos líderes máximos da facção criminosa: Roberto Soriano, o Tiriça, e Daniel Vinicius Canônico, o Cego. Eles negociavam a transferência de uma lotação de um para o outro. A carta foi escrita por Tiriça. Ele dizia ser necessário "acelerar" pessoas na São Paulo Transporte (SPTrans) e nas cooperativas para facilitar a transação.

INVESTIGAÇÃO PARADA

Em maio de 2015, o assassinato de uma testemunha e o espancamento de outra paralisaram a investigação da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social da capital - braço do Ministério Público encarregado de investigações não criminais - sobre a transformação das cooperativas em empresas de ônibus, por meio de fraude. O objetivo da mudança seria permitir que elas participem da disputa por uma licitação planejada pelo prefeito Fernando Haddad (PT) para o transporte.

Perueiros de SP relatam ameaças de novas empresas de lotação

Crimes são investigados em sigilo pelo Ministério Público Estadual

Membros das antigas cooperativas de lotações de São Paulo relatam rotinas de extorsão e ameaças praticadas pelos diretores das novas empresas de transporte de São Paulo. Os casos vão desde falta de pagamento a pressões para que as lotações sejam vendidas para as empresas.

Os crimes são investigados em sigilo pelo Ministério Público Estadual (MPE). A instituição tem ainda um inquérito civil aberto para apurar improbidade de membros da Prefeitura no caso. Entretanto, conforme o Estado noticiou na semana passada, essa apuração foi paralisada depois da morte do perueiro Sergio da Conceição Nobre Oliveira, ocorrida em fevereiro, na zona leste, e do espancamento de outra testemunha, agora protegida.

As acusações ocorrem às vésperas de a Prefeitura lançar uma licitação estimada em R$ 120 bilhões, em 20 anos, para conceder o transporte público a novos empresários. O edital deve ser publicado ainda neste mês.

Segundo informações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), uma testemunha protegida disse que a empresa Allianz, antiga Cooperativa Paulistana, a mesma onde trabalhava o perueiro Oliveira, foi formada para fazer um contrato emergencial com a Prefeitura e "obter atestado de capacidade técnica e participar da licitação a ser realizada futuramente pela municipalidade para contratar prestadores de serviço de transporte".

Perueiros das zonas sul, leste e oeste, que pediram para não serem identificados, contam que a mudança de natureza das associações - de cooperativa para empresa - foi tomada à revelia dos sócios. A situação não teria ocorrido apenas na Allianz.

Achaques."Todo mundo questionou essa mudança. Ninguém concordou. Sabe o que aconteceu? Eles (diretores) perguntaram se a gente queria discutir isso e ligaram para a cadeia, no viva voz", disse um perueiro ouvido pela reportagem. "Quem vai questionar esses caras?", afirmou, referindo-se supostamente à facção PCC.

Na prática, a mudança fez com que cooperados virassem empregados dos diretores, que os ameaçavam diante de contestações. "A SPTrans paga R$ 2,10 por passageiro transportado. O pagamento é feito para a cooperativa, que fica com uma parte, e repassa o resto. Mas, agora, estão ficando com quase tudo. Meu repasse foi para R$ 1,08. Mal dá para pagar o motorista e abastecer o carro", contou outro perueiro. Antes da mudança, o repasse ficava em cerca de R$ 1,70, diz ele.

Além de ficar com parte do dinheiro, os empresários teriam passado a pressionar perueiros a entregar seus veículos. "Pago uma prestação de R$ 3.600 do meu carro à cooperativa, que fez a compra. Eles começaram a cobrar R$ 4 mil, até mais. Eu disse que assim não dava. Então falaram que, se eu não estava aguentando, devia vender meu carro para eles", contou outro perueiro.

A investigação paralisada do MPE chegou a ouvir cinco depoimentos semelhantes antes de o medo afastar novas testemunhas. Elas contaram casos parecidos. A promotora pública Karyna Mori, que ouviu essas pessoas, acompanha agora a publicação do edital que vai escolher as novas empresas. A investigação criminal, do Gaeco, segue em sigilo.

Diretor de empresas nega problemas à polícia

A reportagem procurou o advogado Anderson Barbosa da Silva, de 44 anos, presidente da Allianz, para comentar as informações presentes no inquérito do Ministério Público Estadual (MPE), mas ele não retornou as ligações.

Silva dirige a empresa citada no depoimento feito ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) sobre o caso. É também a mesma empresa onde trabalhava o perueiro Sérgio da Conceição Nobre de Oliveira, morto em fevereiro supostamente por se queixar das mudanças no sistema de transporte.

À Polícia Civil, segundo depoimento a que o Estado teve acesso, ocorrido em 10 de abril, o advogado disse que a antiga cooperativa "estava revendo contratos das prestadoras de serviços e afins, visando regularizar todas as situações em desacordo com a São Paulo Transporte (SPTrans). Por causa disso, alguns contratos de parceria foram cancelados, outros alterados", disse. O advogado disse que conhecia a vítima só de vista, mas afirmou que ela era "polêmica".

Na quinta-feira, em entrevista ao Estado, o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, afirmou que a contratação da empresa no lugar das cooperativas que já operavam na cidade ocorreu a pedido das próprias empresas, que queriam se modernizar. A solicitação teria ido ao encontro de reivindicações que já haviam sido feitas pelo Ministério Público e de recomendação feita pela empresa de auditoria Ernst & Young, que analisou as contas do sistema de transporte.

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